Idealizado pela antropóloga Mary Alegretti, quando conheceu a realidade dos seringueiros através da sua aproximação com Chico Mendes, o Projeto Seringueiro nasceu com o propósito de levar educação, saúde e cooperativismo às comunidades extrativistas do Acre. Inspirado no método Paulo Freire de educação popular, tornou-se referência na luta por autonomia e cidadania na floresta e foi desenvolvido pelo Centro dos Trabalhadores da Amazônia (CTA).
Educação como Ferramenta de Transformação
A iniciativa começou com um grupo de jovens educadores que implantaram uma rede de escolas nos seringais do Acre. A proposta pedagógica foi adaptada à realidade local, respeitando os saberes e o cotidiano das comunidades. A primeira escola, Wilson Pinheiro, foi construída na colocação Já Com Fome, no seringal Nazaré — hoje parte da Reserva Extrativista Chico Mendes.
A escolha do seringal Nazaré foi estratégica. Segundo Manoel Estébio (um dos primeiros componentes do projeto), o desmatamento na Fazenda Bordon influenciava outras propriedades da região. “A instalação da escola foi um ato de resistência diante da expansão da pecuária, que ameaçavam o modo de vida tradicional dos seringueiros”.
Autonomia e Conscientização
Com apenas 14 alunos adultos, a escola Wilson Pinheiro iniciou suas atividades em um contexto de forte tensão social e econômica. O CTA identificou a dependência dos trabalhadores em relação aos marreteiros, intermediários na compra e venda de produtos da floresta. A solução foi oferecer educação contextualizada, promovendo autonomia e consciência crítica.
Em 1981, os educadores criaram a Cartilha Poronga, uma ferramenta pedagógica que adaptava os princípios de Paulo Freire à realidade local, reduzindo o uso das tradicionais fichas de alfabetização.
Impacto e Expansão
O Projeto Seringueiro, junto com os empates — manifestações pacíficas de resistência — foi decisivo para a criação da reserva extrativista. À medida que as comunidades passaram a reivindicar escolas, o CTA respondeu com a ampliação da rede educacional.
O núcleo inicial de educadores evoluiu para uma equipe de formação de novos quadros, contando com o apoio de lideranças como Binho Marques, Fábio Vaz e outras, que impulsionaram a expansão do projeto.
Legado e Continuidade
Na década de 1990, o CTA já acompanhava 51 escolas e mais de mil crianças matriculadas por ano, além de 32 postos de saúde comunitários. Nesse período, os trabalhadores da floresta passaram a contar com uma central de produção para apoiar a coleta e comercialização de produtos como castanha e borracha, fortalecendo a economia local e o cooperativismo.





