Uma vida dedicada à floresta
Sebastião Nascimento de Aquino, conhecido como Tião Aquino, nasceu no Seringal Dois Irmãos, em Xapuri, Acre. Há 46 anos vive na mesma região, que em 1990 passou a integrar a Reserva Extrativista Chico Mendes, fruto da luta dos moradores locais. Sua trajetória é marcada pela defesa da floresta e pela busca de alternativas para garantir a permanência das famílias em seu território.
Educação como ferramenta de transformação
Em 1993, aos 14 anos, Tião iniciou os estudos na Escola Ivair Higino, parte do Projeto Seringueiro, concluindo o ensino fundamental graças à parceria da escola com a CUT e o Sindicato dos Trabalhadores e Trabalhadoras Rurais de Xapuri (STTR/Xapuri).
Sem acesso ao ensino médio na região, buscou formação através do Departamento de Ensino Supletivo (DESU), estudando disciplina por disciplina. Após concluir, tornou-se professor leigo na mesma escola onde havia sido alfabetizado, alfabetizando jovens, crianças e adultos — uma experiência que considera um marco de sua vida.
Formação acadêmica e liderança comunitária
Tião seguiu sua trajetória acadêmica: participou do Programa de Formação de Professores (PROF), formou-se em Matemática e concluiu pós-graduação em Psicopedagogia.
Entre 2009 e 2015, atuou na Associação de Moradores da Reserva Extrativista de Xapuri- AMOPREX, contribuindo para a gestão e implementação de ações comunitárias. Mais tarde, integrou o conselho da COOPERACRE e, em 2018, foi cofundador da Cooperativa de Xapuri, onde exerce até hoje os cargos de presidente e gerente administrativo.
Uma nova proposta de educação
Atualmente, Tião Aquino defende a construção de uma educação voltada ao pós-extrativismo, em parceria com o Instituto Federal do Acre (IFAC), a Universidade Federal do Acre (UFAC) e a Secretaria de Educação.
Seu objetivo é criar uma escola inspirada em modelos como o MST e o RECA, que valorizam os modos de vida das famílias da floresta. Para ele, a formação de professores é essencial: sem ela, a educação continua distante da realidade local e reforça a ideia de que os jovens precisam deixar a floresta para buscar oportunidades na cidade.
O legado do Projeto Seringueiro
O Projeto Seringueiro foi mais que alfabetização: ensinava o conhecimento do território e sua defesa, incentivando a permanência das famílias na região.
Com o tempo, a educação perdeu parte desse foco, orientando os jovens a buscar empregos fora da floresta. Para Tião, essa mudança é marcante: antes, o ensino fortalecia a gestão comunitária; hoje, muitas vezes, afasta os jovens de suas raízes.
Ele defende a criação de uma escola da floresta, feita por e para os moradores locais, rompendo com a ideia de que quem vive na floresta é iletrado.

Por Cristina da Silva e Marcos Jorge Dias. Entrevista realizada em 31 de dezembro de 2025, em Rio Branco (AC)



